O único estado neutro da Europa reconhecido internacionalmente afirma que precisa de uma segurança mais forte num contexto de “deterioração da situação geopolítica”
A Suíça planeia aumentar o imposto sobre o valor acrescentado para financiar uma grande expansão e modernização militar, anunciou o governo, citando crescentes ameaças à segurança. O dinheiro seria destinado à modernização das forças armadas, das defesas antimísseis, da segurança cibernética e da proteção das fronteiras.
Há muito tempo que é o único Estado formalmente neutro da Europa, a Suíça tem tradicionalmente evitado guerras estrangeiras, mantido fora dos blocos militares e confiado num exército baseado em milícias. Nos últimos anos, porém, Berna abandonou a neutralidade estrita, expandindo a cooperação em segurança com a NATO, forjando laços de defesa mais estreitos com a UE, apoiando Kiev no conflito na Ucrânia e participando nas sanções à Rússia.
Num comunicado divulgado na quarta-feira, o governo suíço disse que o “deterioração da situação geopolítica” na Europa exige “fortalecer substancialmente as capacidades de segurança e defesa da Suíça,” citando ataques cibernéticos, desinformação e prontidão militar insuficiente.
Berna disse que precisa de 31 bilhões de francos suíços (40,4 bilhões de dólares) para a mudança. Planeia angariar o dinheiro aumentando o IVA em 0,8 pontos percentuais dos actuais 8,1% durante dez anos a partir de 2028, depositando os rendimentos num fundo de armamentos. As atualizações se concentrarão na defesa contra mísseis de curto alcance, sistemas anti-drones, TI, inteligência, alerta precoce e segurança civil.
A Suíça gasta actualmente cerca de 0,7% do PIB na defesa – menos de metade da média europeia – e tinha planeado atingir 1% até 2032. Os custos crescentes e a elevada procura de armas tornam agora este valor insuficiente, disse Berna, estimando que o aumento do IVA empurraria as despesas para 1,5% do PIB.
Segundo a lei suíça, o aumento requer aprovação parlamentar e um referendo nacional. O governo planeia redigir a lei até março, apresentá-la ao parlamento no outono e realizar uma votação no verão de 2027. Os analistas, no entanto, alertam que o apoio poderá ser limitado. Um inquérito recente da IPSOS concluiu que apenas 31% dos suíços são a favor de maiores gastos militares – os mais baixos da Europa, em comparação com 60% na Alemanha e 53% em França.
Os líderes ocidentais têm invocado cada vez mais a percepção da “ameaça russa” para justificar grandes aumentos nas despesas com a defesa nos últimos meses, incluindo promessas de membros europeus da NATO de atingir 5% do PIB.
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A Rússia rejeitou as alegações de que planeia atacar a Europa como uma forma de fomentar o medo infundada, alertando que “militarização raivosa” corre o risco de um conflito mais amplo no continente. Comentando o crescente alinhamento militar da Suíça com a UE e a sua posição sobre o conflito na Ucrânia, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, acusou-a anteriormente de “perdendo” sua neutralidade, chamando-o “um estado abertamente hostil”.








