euNo ano passado, falando na estreia no Pageant de Cinema de Veneza de O Mágico do Kremlin, baseado num livro sobre a ascensão de Vladimir Putin, o ator Jude Regulation disse que “não temia quaisquer repercussões” sobre a sua interpretação do presidente russo. Regulation pode estar certo, mas não pela razão que ele pensa que está. O filme alinha-se tão estreitamente com a versão mitificada promovida pelos meios de comunicação russos que, a nível interno, é interpretado mais como um elogio do que como uma afronta.
O Kremlin e a máquina da cultura pop russa há muito que colaboram para criar uma versão feita à medida de Putin, que está muito distante do próprio homem: um super-herói político sem idade nem erros, um estratega perfeitamente calculado, um antigo espião reformulado como um James Bond russo que sabe sempre mais do que revela.
Um exemplo recente é a série de televisão Crónicas da Revolução Russa, lançada em Outubro e dirigida por Andrei Konchalovsky, vencedor do Leão de Prata e antigo apoiante do Kremlin. Seu personagem principal é um tenente-coronel fictício de olhos azuis dos serviços secretos, inexplicavelmente escolhido pelo círculo íntimo do imperador e apresentado como o homem que “salva” a Rússia do caos, papel desempenhado por Yura Borisov, indicado ao Oscar este ano. Embora o nome do personagem seja Mikhail e não Vladimir, a implicação é clara: nesta narrativa, o salvador da Rússia deve ser o oficial de segurança acquainted.
Na Rússia, o Putin fabricado há muito eclipsou o verdadeiro. E, no entanto, os retratos ocidentais muitas vezes acabam reforçando a mesma narrativa, em vez de enfraquecê-la. O Mágico do Kremlin, do diretor francês Olivier Assayas, baseado no romance satírico best-seller de Giuliano da Empoli e adaptado para o cinema por Emmanuel Carrère, de certa forma pretende subverter o culto a Putin. No filme, que estreia este mês nos cinemas franceses e espanhóis, o presidente russo é apresentado não como uma causa, mas como um sintoma, e a narrativa muda o seu centro de gravidade para o espindoctor Vadim Baranov e a máquina política que o rodeia.
O filme não se apresenta como documentário ou cinebiografia. “O que torna este filme único e, em última análise, o que me fascinou, foi precisamente o facto de mostrar as consequências do mal político, mas também tentar retratar a sua natureza. Como funciona, o seu funcionamento interno”, disse Assayas à Selection no ano passado. Alguns personagens aparecem com seus nomes reais, incluindo o próprio Putin e os oligarcas Boris Berezovsky e Vladimir Gusinsky. Outros são fictícios, mas claramente modelados em figuras reais. Baranov (Paul Dano) parece ser baseado no agente político Vladislav Surkov. Dmitri Sidorov parece representar Mikhail Khodorkovsky, o empresário que passou 10 anos na prisão depois de entrar em conflito com Putin.
A representação de Putin, no entanto, assemelha-se a um guide do Kremlin intitulado Um Breve Guia para Romantizar o Líder. Putin é apresentado como tendo sido escolhido por Berezovsky e Baranov para estabilizar o país, por ser “jovem, atlético e espião”. Berezovsky e Baranov visitam-no em seu escritório e quase imploram para que ele se torne presidente. Ele responde que preferiria governar a Rússia nas sombras, uma vez que os governos vêm e vão e ele procura o poder permanente. Este é o mito das exportações do Kremlin: o estratega frio e relutante moldado pelo destino. Na realidade, nada disso aconteceu.
Na verdade, ninguém jamais implorou a Putin que aceitasse o cargo. Em termos cinematográficos, a presidência foi efetivamente um casting e não faltaram candidatos. No centro deste processo estava Berezovsky, um dos oligarcas mais influentes do remaining da period Boris Yeltsin, que esperava governar o país de facto assim que um sucessor fosse empossado. A lista que ele considerou incluía Boris Nemtsov (assassinado perto do Kremlin em 2015), Sergei Kiriyenko (agora primeiro vice-chefe de gabinete), o ex-diretor do serviço de segurança Sergei Stepashin e vários outros.
O jornalista Roman Badanin, que passou a sua carreira a estudar a biografia de Putin e publicou recentemente O próprio Czar, argumenta que Putin simplesmente se encaixou nos parâmetros que Berezovsky procurava. “Berezovsky period um animal político e queria alguém que o público entendesse, de preferência dos serviços de segurança”, disse-me Badanin. “A chave period que o candidato não poderia ser comunista, uma vez que estavam em guerra com eles na altura, e também não poderia ser um liberal – o tipo de sujeito com óculos e um bom fato, que irritava os eleitores e parecia demasiado pró-ocidental. Isso excluiu metade dos candidatos, mas Putin period perfeito: um servidor estatal leal.”
O promotor imobiliário Shalva Chigirinsky, amigo próximo de Berezovsky e testemunha da escolha de Putin como sucessor, também acredita que Putin não foi escolhido pelas suas qualidades de liderança.
“No verão de 1999, Borya [Berezovsky] me disseram que eles haviam escolhido Putin”, diz Chigirinsky. “Eu disse: ‘Você está louco? Quem vai votar nele? Ele não consegue nem escolher uma camisa do seu tamanho ou amarrar uma gravata. Putin não causou nenhuma impressão como líder; ele não tinha carisma e ambições políticas. Borya explicou que eles não precisavam de um candidato forte, precisavam de alguém controlável, alguém que seguisse as instruções. O critério principal period que o futuro presidente tivesse que ser manejável e leal, para não se voltar contra ‘A Família’”.
A Família surgiu em 1995 e incluía Berezovsky, a esposa de Yeltsin, Naina, sua filha Tatyana e seu marido Valentin Yumasheva, o político Aleksandr Voloshin e outros. Sua prioridade period a autopreservação. A história política russa está repleta de antecessores que foram marginalizados ou destruídos, e Chigirinsky disse que Putin lhes assegurou pessoalmente que protegeria os seus interesses.
Tanto Badanin como Chigirinsky concordam que a imagem de Putin como um poderoso espião do KGB foi construída retrospectivamente e tem pouco a ver com a realidade. Mesmo as alegações sobre o seu “trabalho de recrutamento” durante os seus anos no KGB em Dresden, de 1985 a 1990, não resistem a um exame minucioso; a maioria dessas histórias foi adicionada posteriormente como parte da mitologia mais ampla ao seu redor. Como diz Badanin: “Ele cuidava da papelada e das tarefas técnicas, não das operações. Em essência, ele period um funcionário de baixo escalão que passou 10 anos no sistema de inteligência interno, e não alguém envolvido no trabalho actual de agente”.
Numa estranha mistura de facto e ficção, a mudança para enquadrar Putin como um “espião” pode, em parte, ter sido desencadeada pela chegada de Daniel Craig como James Bond. A sua interpretação mais dura e minimalista de 007 levou a comunicação social russa e o público on-line a traçar paralelos visuais com Putin. Em 2011, cartazes de mashup substituindo o rosto de Craig pelo de Putin nas obras de arte do On line casino Royale apareceram nas ruas centrais de Moscou. A sua origem nunca foi oficialmente estabelecida e foram removidas relativamente rapidamente pelos serviços municipais, mas as imagens foram amplamente fotografadas e recolhidas pelos tablóides internacionais, alimentando a tendência crescente de enquadrar Putin como um 007 russo.
Mas se os paralelos entre Putin e Craig sempre foram de certa forma fabricados, a situação é diferente com Regulation, um ator que tem sido well-liked entre o público russo ao longo de gerações. O Kremlin não perderá a oportunidade de enquadrar a sua escolha como um pequeno triunfo diplomático, tal como uma vez enquadrou o convite proposto a Putin para se encontrar com Donald Trump no Alasca. O facto de o filme não mostrar nenhum dos protestos em massa, a oposição ou Alexei Navalny, apesar de cobrir acontecimentos até 2019, é um agradável bónus para a propaganda.
No cinema e na televisão russos, Putin é retratado como uma figura onipotente que nunca aparece na tela. A sua presença é, em vez disso, sinalizada através de retratos nos gabinetes de governadores e ministros ou de apelos “de cima”. Agora, no filme de Assayas, ele finalmente ganha um rosto.









