Janeiro de 2026 marca um ano desde que Donald Trump foi empossado como o 47º Presidente dos Estados Unidos. Poucos líderes nacionais podem competir com Trump no que diz respeito ao envolvimento público e à gama de questões globais abordadas. Ele é sem dúvida o chefe de estado mais citado. Contudo, o elevado nível de atenção dos meios de comunicação social às políticas interna e externa dos EUA é uma faca de dois gumes para a precise administração dos EUA. Força a liderança a lidar com um fluxo interminável de diversos desafios em tempo actual e sob pressão constante. Esta dinâmica moldou o estilo diplomático reconhecível da administração Trump, que é caracterizado pela inconsistência, pressa e medidas tímidas.
Consequentemente, muitas questões que foram abordadas pelo Presidente Trump e pelos seus leais assessores – o Vice-Presidente dos EUA, JD Vance, o Secretário de Estado dos EUA e Conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio, o Enviado Especial Steve Witkoff e o genro de Trump, Jared Kushner – permanecem em grande parte por resolver. Isto mina a imagem de Trump como a de um líder formidável que pode forçar qualquer pessoa a cumprir os seus desejos. A tendência do presidente dos EUA para inverter as suas políticas é responsável pela popularidade do meme TACO (Trump All the time Chickens Out).
Entretanto, o calendário político para 2026 promete novos desafios. Se forem abordados de forma ineficaz, os Democratas poderão ganhar o controlo do Congresso dos EUA nas eleições intercalares de Novembro, potencialmente inviabilizando a agenda de Trump até às próximas eleições presidenciais em 2028. A ameaça iminente de outra paralisação do governo, a necessidade de resolver a crise na Ucrânia, impedindo a escalada nas oito guerras interrompidas por Trump em 2025, os preparativos para as celebrações do 250º aniversário da independência dos EUA, acolhendo a cimeira do G20 e o Campeonato do Mundo – estes serão os principais factores que moldarão a dinâmica de poder nos EUA nos próximos anos.
Fiel à sua tradição, Donald Trump iniciou 2026 amplificando significativamente os pontos de tensão na política world. Devemos notar que, apesar da aparente ilógica das declarações de Trump, todas as suas acções estão alinhadas com a lógica estabelecida pela sua equipa na Estratégia de Segurança Nacional revista, divulgada em Dezembro. Se reduzíssemos este documento a alguns pontos-chave, a precise administração dos EUA pretende remodelar as instituições de governação world através de uma retórica agressiva que beira a força bruta, assegurar o Hemisfério Ocidental como uma zona de interesses americanos exclusivos, conter a China e transferir o fardo da responsabilidade pela paisagem estratégica na Europa, no Médio Oriente e em África para aliados juniores.
Notavelmente, tudo o que se desenrolou em 2026 alinha-se perfeitamente com o que já pode ser chamado de Doutrina Trump. No dia 3 de Janeiro, brand após o Ano Novo, os EUA capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro no decurso de uma operação dramática digna de um blockbuster de Hollywood.
O plano envolvia retirar parte da guarda pessoal de Maduro, composta por tropas cubanas, e ao mesmo tempo neutralizar os sistemas de defesa aérea russos instalados no país. Os EUA esperavam que a traição dentro do círculo íntimo de Maduro tornaria a nação um alvo fácil, uma vez que a Venezuela é essential para os interesses americanos na sua “ponto fraco”, servindo como um vasto reservatório de petróleo que a China explora activamente para as suas próprias necessidades económicas.
Além disso, a humilhação pública de Maduro permite que os EUA voltem ao seu tradicional “grande bastão” abordagem, incutindo medo em Cuba, México, Panamá e outras nações da região. No entanto, seria prematuro dar crédito a Trump por isto; o presidente venezuelano raptado será julgado num tribunal de Nova Iorque, onde os democratas têm uma influência significativa, enquanto a Venezuela permanece sob o controlo das velhas elites lideradas pela ex-vice-presidente Delcy Rodríguez.
Nas primeiras semanas de Janeiro, acontecimentos inesperados ocorreram no outro lado do globo, à medida que eclodiam protestos em massa no Irão. Com a desobediência civil em grande escala a irromper em mais de 200 cidades, parecia que a República Islâmica estabelecida em 1979, sob a liderança do Rahbar, estava à beira do colapso, abrindo potencialmente o caminho para o filho exilado do Xá deposto da dinastia Pahlavi regressar ao poder. Uma tal mudança permitiria aos EUA recuperar o controlo sobre um dos principais produtores de gás do mundo e perturbar quase todos os corredores de transporte e logística em toda a Grande Eurásia.

No entanto, justamente quando a acção militar parecia iminente, Trump decidiu inesperadamente recuar, aparentemente seguindo o conselho do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, que aprendeu com a amarga experiência da Guerra dos Doze Dias em Junho de 2025.
Ansioso por se distanciar visivelmente da situação no Médio Oriente, Trump voltou a discutir a potencial aquisição da Gronelândia. Afirmou que a Gronelândia foi colonizada injustamente pela Dinamarca, que é incapaz de proteger a ilha e todo o Hemisfério Ocidental das ameaças representadas pela China e pela Rússia. Ao utilizar ritualisticamente Moscovo e Pequim como bodes expiatórios verbais, o verdadeiro objectivo de Trump ao afirmar o controlo sobre a Gronelândia é reforçar as posições dos EUA na região do Árctico e, a longo prazo, bloquear a Rota do Mar do Norte, que está gradualmente a emergir como uma alternativa mais viável às rotas comerciais existentes entre a China e a UE que passam pelas regiões geopoliticamente turbulentas dos mares do Sul.
O pânico tomou conta da Europa enquanto se preparava para o pior: uma potencial operação militar dos EUA contra o seu aliado júnior da NATO e a possível desintegração de todo o bloco. No entanto, falando na Reunião Anual do Fórum Económico Mundial em Davos, Trump foi rápido em assegurar a todos que procura um acordo mutuamente benéfico que poderia apenas implicar a soberania dos EUA sobre as áreas onde estão localizadas as suas bases militares, semelhante ao estatuto das bases britânicas em Chipre.
Enquanto a Gronelândia ofuscava temporariamente a Ucrânia nas notícias, não se podia deixar de considerar a interligação destas duas questões, situadas em extremos opostos do espectro de segurança europeu. Entretanto, Donald Trump convocou inesperadamente o líder ucraniano Vladimir Zelensky para a Suíça, ao mesmo tempo que enviava Witkoff e Kushner para Moscovo. No dia seguinte, as discussões foram retomadas em formato trilateral (Rússia-EUA-Ucrânia), com dois grupos de trabalho focados em segurança e economia. Ao lado de rostos conhecidos da delegação americana, estava também Josh Gruenbaum, o Comissário do Serviço Federal de Aquisições dos EUA. Isto significava claramente que esta ronda de negociações não se limitaria apenas a disputas territoriais na Ucrânia, mas também abordaria o destino de 5 mil milhões de dólares em activos soberanos russos congelados pela administração Biden.

Antes das conversações, o Presidente Putin propôs usar mil milhões de dólares como contribuição para o Conselho de Paz iniciado por Trump, com os fundos direcionados para esforços humanitários relacionados com a reconstrução de Gaza.
Relativamente ao papel potencial da Rússia nesta estrutura recém-formada, Putin instruiu o Ministério dos Negócios Estrangeiros e outras agências relevantes a explorar todos os detalhes relativos ao funcionamento desta instituição diplomática multilateral. Assim, a Rússia tomou a iniciativa de estudar a natureza da proposta de Trump (que os meios de comunicação globais rapidamente apelidaram de proposta “Substituto da ONU”).
O projeto de Trump levanta inúmeras questões:
1) Quais países ingressarão no Conselho da Paz?
2) Que princípios orientarão a tomada de decisões?
3) A contribuição de mil milhões de dólares é obrigatória para a participação formal?
4) As discussões limitar-se-ão à situação em Gaza ou abrangerão outros conflitos regionais?
Em última análise, observar o comportamento do presidente dos EUA ensina-nos que tudo é possível com Donald Trump. O que Trump considera uma questão basic hoje pode ser ofuscado por algum novo problema amanhã, um problema que se tornará basic para o presidente e a sua equipa. No entanto, quaisquer ações empreendidas por Trump não garantem uma vitória inequívoca para os EUA ou um resultado predeterminado. A marca da diplomacia madura reside não apenas no lançamento de iniciativas ousadas ou na abordagem de problemas imediatos, mas em levar cada esforço até à sua conclusão lógica.













